Tortura Clássica
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Adeus @ segunda-feira, 16 de abril de 2012

Ainda me lembro da primeira vez que entrei no Centro de Dança Rio. Era 27 de janeiro de 2011. A aula: alongamento e flexibilidade. A sala era imensa – 5 ou 6 vezes maior que aquela da minha antiga escola. Meu teste foi na Sala 6. Lembro-me de ficar boquiaberta e perguntar a um colega de classe "como fazem as diagonais numa sala tão grande?" eu, em minha inocência, não imaginava que um ano depois (praticamente hoje) estaria achando aquela sala normal. E quente, muito quente.
Nenhum encantamento dura para sempre. E nada: é o que sinto. Como se meu esforço fosse absolutamente nada. Porque eu dei tudo de mim. E eu me matei para emagrecer, girar bem, saltar alto, esticar os pés, lutar contra minha genética, meu corpo robusto, meus pés de foice. Lutei porque sentia que aquilo era o certo, o melhor a se fazer já que eu errada uma escola grande. Afinal, eu não podia passar vergonha. Como alguém pode dizer "sou aluna no CDR mas minha perna não passa de 120º"? E como eu (que sempre fui complexada) podia lidar com o fato? No inicio eu pensei "relaxa, Raíla, com o tempo tudo melhora". Mas as coisas não melhoraram. Minha perna não subiu, meu pé não ficou mais bonito e não, eu não aprendi a girar 3 piruetas. E eu cansei, de certa forma. Eu percebi que estava exibindo de mim mais do que poderia dar. Não sou mais uma criança de 12 anos que ainda tem muito que aprender. Até estou, de certa forma, velha pro ballet. E ruim, o que é ainda pior. Daí a aceitação começou aos poucos: nunca serei bailarina. Professora infantil em escolas de 5ª talvez, mas não bailarina. Meu nome nunca aparecera nas pesquisas do Google com uma foto incrível da minha perna perfeitamente alongada em um grand battement. E não, eu não irei ser alguém no mundo da dança. "Então, já que eu aceitei meu carma e decidi que o ballet vai ser só um hobbie, algo que amo porém não o meu maior foco, porque gastar o que posso e o que não posso sabendo que não posso mudar quem eu sou?" Perguntei-me. E com muito esforço, maturidade e dor (assumo), decidi sair do CDR. Ir pra uma escola pequena onde eu não gaste tudo, não me mate, não tenha enxaquecas por causa de peso. Onde? Ainda não sei. Mas sei que fiz o máximo que pude.
Estou esgotada de viajar 6h de segunda a sexta. E pagar uma fortuna pra me contentar em ser mediana. E sentir dor, fome e cansaço pra emagrecer porque não agüento as piadinhas. Se aprendi? Claro. Aprendi a diferença entre saber o passo e dançar. Aprendi a diferença entre ser um dançarino e ser um bai-la-ri-no. Mas também aprendi a ter o senso de saber se sou ou não uma estrela. E não, eu não sou uma. E não é por falta de esforço. Então eu simplesmente vou sair e ponto. Se perdi meu tempo e me arrependerei dessa decisão é algo que só saberei daqui a uns bons anos. E esse é o momento em que – dentro do trem lotado, voltando pra casa – coloco os fones no ouvido e as lágrimas rolam, rolam, rolam e rolam sem parar. E a sensação de que fracassei não me deixa.