Tortura Clássica
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Que comece a tortura clássica! @ domingo, 23 de janeiro de 2011

Cheguei em casa e fiquei olhando pro teto iluminado por velas. faltou luz. moro em um bairro um tanto afastado do centro da minha cidade (nova iguaçu). Ao sair de casa, pego um ônibus que leva cerca de 50 minutos para chegar ao centro de nova iguaçu. corro e gasto mais 1h para entrar na estação, pegar um trem e descer em engenho de dentro, onde faço baldeação e pego outro trem para o méier. Caminho mais 20 minutinhos até minha escola. minha nova escola. centro de dança rio. não é uma escola de dança. é A escola de dança. Saí de casa às 2h da tarde e agora são 22h. preciso dormir-preciso dormir-preciso dormir-preciso dormir: é tudo que penso dentro do ônibus, voltando pra casa. faço um grande esforço para não pegar no sono e passar do ponto. penso em tudo que deixei pra trás. penso nas pessoas que eu tanto amava e tive que dar adeus pra correr atrás do meu sonho distante… meu sonho que mora a 2h30mim da minha casa. meu sonho que busco sozinha...
o dia foi proveitoso. saí de casa para um lugar longe e novo. 1ª lição de vida que aprendi com isso? fique atenta às pessoas estranhas. 2ª lição? ande sempre com um guarda-chuvas na bolsa. enfrentei chuva e cheguei encharcada e atrasada no meu primeiro dia de aula. se eu tô sentindo alguma coisa nesse momento? nada. não sinto o braço, não sinto a perna, não sinto o pescoço, não sinto os pés… motivo? aula de alongamento e flexibilidade. até minha cabeça tá doendo. a aula de jazz foi frustrante. tô cansada e pensativa demais pro meu gosto. fiz minha matricula hoje. não tô nem um pouco arrependida, mas tô pensando se não é dinheiro jogado fora. tô pensando se vale à pena enfrentar trânsito, cansaço, homem tarado e trem lotado, só pelo ballet. será que vale à pena, agora que eu sei que não vou chegar em nenhum lugar muito alto? é. eu vi isso hoje. eu vi gente que respira dança. eu vi gente super-hiper-alongada… e eu, que me achava um tanto alongada, me vejo apenas como alguém ‘um pouquinho flexível’ agora. só isso. eu vi gente sorrindo com a perna na cabeça, como se não estivesse fazendo nada demais, como se não doesse fazer aquilo. eu vi gente naturalmente magra e alta e linda… e eu vi gente com cara de bosta, me olhando como se eu não fosse nada. e eu vi que eu realmente não era nada... 
hoje, quando fui fazer a bendita matrícula, o Felipe – meu novo companheiro diário do mundo dançante – olhou pra mim parada lá, com a ficha na mão, e perguntou o que eu tava esperando pra assinar meu nome e dar um fim na espera. eu respondi: – sei lá. uma coisa é você querer muito uma coisa sabendo que nunca vai ter ela… outra coisa é você ter essa coisa na sua frente e ter que escolher se realmente quer ela, pro resto da sua vida… eu tava mesmo preparada praquilo? tava preparada pra andar sozinha? tava preparada pra não esquecer quem eu era no meio de tanta gente 10 vezes mais magra, bonita e alongada que eu? eu realmente tinha força pra não só ignorar, mas não deixar me abater pelas caras feias, os narizes impés e as más bocas? a resposta para todas as perguntas: não. não tava nem um pouco preparada… mas eu fiz minha matricula. fiz minha matricula impulsionada pela minha enorme vontade de crescer, minha enorme vontade de ter a mínima possibilidade de ser alguém no mundo da dança.
eu sei muito bem quem eu sou, sei muito bem o que sou capaz de ser, sei muito bem de onde vim, e sei muito bem até onde posso chegar… eu ainda lembro que eu moro em nova iguaçu, que eu não sou rica, que eu tô acima do peso ideal de uma bailarina, e que eu tenho coxas demais. eu sei muito bem que eu não faço parte daquele mundo clássico, rosa e fofo. eu sei muito bem o que tem por trás de todos aqueles collants, corpos magros e sorrisos lindos. eu sei que uma bailarina sofre. eu já passei por isso. eu estava com milhares de perguntas na minha cabeça… eu estava com milhares de dúvidas, e super despreparada… mas eu estava muito, muito feliz. eu fiz minha matrícula, cara. tem noção do que é isso? tá, eu sei que eu tenho muito mais sorte do que juízo, e que eu sou impulsiva demais… mas e daí? eu não tenho como voltar atrás, e se tivesse, não mudaria nada. eu moro à quase 3h do méier, eu vou e volto totalmente  sozinha, eu peso 51kg e não sou bonita, nem rica, nem super alongada…. mas eu gosto de dançar. é suficiente? é? me fala, please. mata a minha dúvida cruel. eu chego em casa cansada, dolorida, descabelada, mas eu me sinto tão quando eu danço…é suficiente? é? eu nunca serei magrela, nunca serei a 1ª bailarina do Theatro Municipal, mas eu queria tentar tirar algum proveito dessa paixão louca que eu tenho pelo ballet clássico… é suficiente? é. é sim. e daí que minhas coxas são grossas? e daí que meu cabelo é crespo e meu coque não é liso e perfeito? e daí que eu não sou 7-8 e não pego uma seqüencia só olhando? eu tô fazendo o que eu amo. bem ou mal, eu tô fazendo… e eu não vou me perder no meio disso… que comece a tortura clássica agora, porque eu vou dançar sobre toda dor!


17/01/2011 – o dia da grande decisão.