sexta-feira, 1 de junho de 2012

Aulas de ballet, vegetarianismo e recomeços.

Festival Interno do CDRio (12/11)

Hoje faz 1 mês que me matriculei em uma nova escola de dança. 1 mês que desisti do Centro de Dança Rio. 1 mês desde a primeira vez que senti: finalmente terei uma chance, serei vista, dançarei.
O bom de estar em uma escola pequena é justamente esse: se você quer, você pode. Já falei isso antes e não quero ser taxativa, mas torno a repetir: em escolas pequenas você tem muito mais atenção, e é cobrado muito mais. Daí vem o outro assunto dessa postagem: biotipo.
Porque assim como me sinto muito mais vista tecnicamente, sinto isso aparentemente. Ou seja, me sinto muito mais timida com relação ao meu físico. Quem me conhece vai rolar os olhos ao ler isso, mas a verdade é essa, quando penso no meu biotipo, penso em disconforto. E esse é o motivo de eu estar sempre de saia, segunda pele e afins na aula de ballet. Não, eu não sou gorda. Meu problema é ainda pior: eu tenho corpo. Coxas e busto maiores do que deveriam ser. Se eu fosse gorda, faria uma dieta e ponto. Mas peso 49kg e ainda assim pareço ter uns 55kg. E não é por falta de esforço, é impossivel mudar isso e ponto. Desde o dia 1º de janeiro me converti ao vegetarianismo (engraçado eu falar assim) e nãoi como nenhum tipo de carne desde então. Minha dieta se resume a muito legumes, verduras e laticínios. Substituí a carne por muito verde e coisas saudáves, leves. Não pelo meu corpo, fiz isso pelos animais, mas acho que não vem ao caso nessa postagem. O caso é que não bebo refrigerante, quase não como chocolate e não gosto de comer besteiras. Mas isso não nada. E o que entristece é ver meninas de 40kg comendo de tudo e continuando com esse peso! Mas deixa pra lá. Não estou aqui para palestrar sobre a minha insatisfação. Estou aqui pra dizer que ninguém precisa entrar em pânico ou parar de dançar por isso. Eu, por exemplo, adaptei uma faixa que me deixa sem busto algum. E passei a usar cintos para afinar a cintura enquanto durmo. O ponto é: faça o que está em seu alcance, mas não pire. Ano passado, quando eu me movia da baixada fluminense à zona norte todo dia, além da preocupação diária com o dinheiro, a saia ou o estilo do coque que eu usaria, uma voz sempre martelava em minha cabeça quando eu entrava na sala e me olhava no no espelho: você está absurdamente gorda. E eu passei pela fase das dietas malucas (quem nunca passou?), crises e choros por isso. E então, de repente, o ano acabou, fiz um belo espetáculo, me tornei vegetariana, mudei de escola e me sinto onde sempre deveria estar. As vezes ainda tenho a sensação de que desisti do meu grande sonho, que era estar lá. Mas aí me lembro de que o melhor para os outros nem sempre é o melhor pra mim. E que eu devo ME colocar em primeiro lugar. E que se eu tiver fé e continuar me esforçando, vai dar tudo certo. E é o que eu estou fazendo: recomeçando. Não sei no que vai dar, mas to seguindo. Afinal, não tenho nada a perder. E ainda tenho meus sonhos em cima da mesa de cabeceira: dançar. Dançar simplesmente porque isso é o que me faz bem.

Beijos,
Raíla Guimarães.
segunda-feira, 7 de maio de 2012

(re)Começando


Terça feira passada foi um dia marcante. Me sentei na janela do trem e observei a cidade ficar pra trás rumo ao Centro de Dança Rio pela ultima vez. Lembro-me de apoiar a cabeça naquele vão da janela e fechar os olhos tranquilizando-me, memorizando que daria tudo certo, que era o melhor a se fazer.
Quando cheguei, olhei todos os lindos quadros que decoram a entrada pela ultima vez. Subi as escadas degrau por degrau (lembrando-me das vezes em que pulei) e fui direto para o vestiário. A despedida de minhas companheiras de dança foi um dos momentos de minha vida que nunca esquecerei. Sem querer ser melancólica: estou quase chorando agora, enquanto escrevo isso.
À caminho da diretoria, encontrei um velho amigo chegando (um amigo que começou a dançar na mesma escola que eu) e expliquei-lhe que estava cancelando minha matricula. Foi triste.
Cancelei minha matricula com um leve aperto no peito de quem não sabe o que fará em seguida. Desci as escadas deslizando as mãos no corrimão cor cinza-desbotado. Todos os meus sonhos estavam ali, eu sempre sonhara em fazer aula em um lugar como aquele e agora estava deixando tudo para trás. Respirei fundo algumas vezes enquanto passava no portão e fechei os olhos por um momento: nunca me esquecerei a primeira ou a ultima aula. Os ensaios aos sábados, as aulas de Dança Livre, os conselhos da professora.
Mas calmem: não fiquei parada. Joguei a preguiça pro alto antes de ser consumida e já fiz minha matricula em uma nova escola. Quarta feira passada fiz minha primeira aula e voltei feliz pra casa. Aliás, tenho me perguntado porque não fiz isso antes... Agora posso ter a honra de dizer que já fiz parte de uma das melhores escolas do Rio, mas me pergunto se era realmente necessário. Óbvio: o CDR me deu toda uma visão privilegiada da dança, convivi com profissonais, 50% das meninas da minha turma serão grande bailarinas e uma delas chegou à fase final do Pris de Lausanne. A questão é que eu não participei de nada disso - ou seja, ganhei experiencia vendo pessoas dançar, e não dançando por mim mesma. Mas estou feliz, creio que tudo isso terá uma imensa serventia no futuro.
O lado bom de tudo e minha maior alegria no momento é saber que finalmente terei uma chance. No Studio de Dança Varejão, minha nova escola de dança, sinto que terei chance de dançar como sempre quis. O defeito de escolas grandes no geral (e tem em todas ela, não no CDR em especial) é que uma classe é privilegiada em participar de festivais, aulas especiais, cursos avançados.. E outra classe faz apenas aulas com todo o resto. Não quero reclamar, desdenhar ou o que for, mas é a mais pura realidade, meu povo. Em escolas grandes não importa o quanto você queira: se você não tem o corpo/capacidade física você simplesmente não tem chance de fazer o que ama. Não diretamente. Já no SDV, contanto que você queira, você pode. E se você pode, meu bem, não há quem diga que não vai dar.
Mas não estou postando para falar da desvalorização de sonhos em grandes escolas. Estou aqui para dizer que estou feliz e espero que finalmente tenha encontrado o melhor lugar pra mim. Só isso.
Boa sorte à todos mas preciso me arrumar agora porque em breve começa minha aula de clássico.
Beijos, Raíla Guimarães.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Adeus

Ainda me lembro da primeira vez que entrei no Centro de Dança Rio. Era 27 de janeiro de 2011. A aula: alongamento e flexibilidade. A sala era imensa – 5 ou 6 vezes maior que aquela da minha antiga escola. Meu teste foi na Sala 6. Lembro-me de ficar boquiaberta e perguntar a um colega de classe "como fazem as diagonais numa sala tão grande?" eu, em minha inocência, não imaginava que um ano depois (praticamente hoje) estaria achando aquela sala normal. E quente, muito quente.
Nenhum encantamento dura para sempre. E nada: é o que sinto. Como se meu esforço fosse absolutamente nada. Porque eu dei tudo de mim. E eu me matei para emagrecer, girar bem, saltar alto, esticar os pés, lutar contra minha genética, meu corpo robusto, meus pés de foice. Lutei porque sentia que aquilo era o certo, o melhor a se fazer já que eu errada uma escola grande. Afinal, eu não podia passar vergonha. Como alguém pode dizer "sou aluna no CDR mas minha perna não passa de 120º"? E como eu (que sempre fui complexada) podia lidar com o fato? No inicio eu pensei "relaxa, Raíla, com o tempo tudo melhora". Mas as coisas não melhoraram. Minha perna não subiu, meu pé não ficou mais bonito e não, eu não aprendi a girar 3 piruetas. E eu cansei, de certa forma. Eu percebi que estava exibindo de mim mais do que poderia dar. Não sou mais uma criança de 12 anos que ainda tem muito que aprender. Até estou, de certa forma, velha pro ballet. E ruim, o que é ainda pior. Daí a aceitação começou aos poucos: nunca serei bailarina. Professora infantil em escolas de 5ª talvez, mas não bailarina. Meu nome nunca aparecera nas pesquisas do Google com uma foto incrível da minha perna perfeitamente alongada em um grand battement. E não, eu não irei ser alguém no mundo da dança. "Então, já que eu aceitei meu carma e decidi que o ballet vai ser só um hobbie, algo que amo porém não o meu maior foco, porque gastar o que posso e o que não posso sabendo que não posso mudar quem eu sou?" Perguntei-me. E com muito esforço, maturidade e dor (assumo), decidi sair do CDR. Ir pra uma escola pequena onde eu não gaste tudo, não me mate, não tenha enxaquecas por causa de peso. Onde? Ainda não sei. Mas sei que fiz o máximo que pude.
Estou esgotada de viajar 6h de segunda a sexta. E pagar uma fortuna pra me contentar em ser mediana. E sentir dor, fome e cansaço pra emagrecer porque não agüento as piadinhas. Se aprendi? Claro. Aprendi a diferença entre saber o passo e dançar. Aprendi a diferença entre ser um dançarino e ser um bai-la-ri-no. Mas também aprendi a ter o senso de saber se sou ou não uma estrela. E não, eu não sou uma. E não é por falta de esforço. Então eu simplesmente vou sair e ponto. Se perdi meu tempo e me arrependerei dessa decisão é algo que só saberei daqui a uns bons anos. E esse é o momento em que – dentro do trem lotado, voltando pra casa – coloco os fones no ouvido e as lágrimas rolam, rolam, rolam e rolam sem parar. E a sensação de que fracassei não me deixa.
segunda-feira, 19 de março de 2012

Pensando...

...em excluir o blog, em sair do ballet no próximo ano, em parar de me sacrificar por coisas/pessoas que nunca perceberão isso.
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Crises bailarinísticas ~mode on/off~

O problema é que é difícil. Fico dividida entre pensar “calma, só tenho 3 anos completos de dança e fui adiantada para o 6º ano, é normal se sentir inferior” ou “não nasci pra dançar e estou gastando meu tempo/dinheiro em vão”. As crises bailarinísticas tem sido constantes. Entrei no Centro de Dança Rio faz 1 ano. Eu tinha 15 anos, 2 anos de dança e milhares de sonhos. Fui colocada no 5° ano simples e unicamente porque a professora achou que eu tinha capacidade pra isso. O ano voou, o espetáculo foi lindo, me senti linda e dancei super bem. Mas o 5º ano acabou. Eu fiz 16 anos, estou no 6° e começo a me sentir velha demais. Sei que é bobagem, mas as minhas colegas de classe tem 11, 12, 13 anos e são bem melhores que eu. Embora saiba que dançar não se trata de ter uma perna alta ou um pé lindo, quero ser boa, e sei que pra isso uma perna alta e pé lindo são essenciais. Daí surge a questão de que moro longe pra caramba e nem bolsa consegui. Logo, torno a pensar “sou um péssima dançarina, por isso não me deram bolsa” e então começa toda a ladainha em minha cabeça de que eu não deveria estar onde estou. De que não sou boa pra isso. De que ano  que vem começa o curso profissional e vou passar para o “Grupo B” porque sou ruim. E fico bipolar, pirada, louca, morta de medo do futuro que tanto quis. Minha primeira aula no 6° ano foi um fiasco. Ano que vem começa o Curso Profissional de Dança e talvez eu não esteja pronta pra isso. Chorei voltando pra casa na segunda feira, e outra vez me peguei pensando em desistir. Daí penso positivo: tenho 16 anos, pago minhas contas, resolvo todos os meus problemas sozinha e estou no 6º ano de dança sem que ninguém tenha me dado tapinhas nas costas pra tal. Cheguei onde cheguei graças ao meu esforço. A dança é minha vida. E lembro-me de um pequeno detalhe básico: faço ballet clássico no Centro de Dança Rio porque sempre sonhei em fazer parte de uma escola de dança excelente. E, pensando positivo outra vez: seguirei em frente. Porque embora eu não seja – nem de longe – a melhor, sei que evoluí. Sinto isso em minha alma, em meu ser. A questão é se meu melhor é suficiente. É se meu melhor vai me levar à algum lugar. Mas aí já é outra história! Embora não pareça, confio em mim mesma. Se não confiasse nem estaria aqui. Agora, minha filha, se não der não deu e ponto final. Ninguém nunca vai poder dizer que eu não tentei.

 

Por Raíla Guimarães